São João del-Rei

A história de São João del-Rei se mistura com a história da Igreja Católica na região. Antes mesmo de sua elevação à Vila de São João del Rey, em 1713, o então Arraial do Rio das Mortes viu, em 1708, a primeira ordem religiosa da cidade ser fundada. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito data de 1º de junho de 1708. Nasceu a fim de abrigar a religiosidade do povo negro, que na época da escravidão era impedido de frequentar as mesmas igrejas de seus senhores.

As Irmandades eram associações de fiéis com o objetivo de realizar obras de caridade e piedade. Os membros de determinada entidade eram aceitos por meio de um compromisso pelo qual o admitido garantia sua adesão e participação relativas ao estabelecido no regimento interno.

As Ordens Terceiras, assim como as Irmandades, tiveram sua origem na Idade Média. Os principais objetivos dessas associações eram a perfeição da vida cristã de seus membros e a prática da filantropia. Para ingresso em uma Ordem Terceira, era necessário submeter-se a um noviciado e passar pelo solene ritual da Profissão.

É importante salientar que a força de tais instituições junto à Igreja Católica se deu, em grande parte, devido ao impedimento imposto pela Metrópole quanto à instalação de Ordens Primeiras – frades sacerdotes e frades leigos – e das Ordens Segundas – freiras e religiosas. Assim, coube às Irmandades e às Ordens Terceiras relevante papel no que diz respeito à vida religiosa, social e artística da cidade.

A Irmandade do Santíssimo Sacramento foi criada em 08 de fevereiro de 1711 na antiga Matriz do Morro da Forca, construção presente desde os primeiros anos da cidade e que mais tarde foi demolida para a construção da, agora, Catedral Basílica do Pilar. As tradições da Irmandade do Santíssimo Sacramento se mantêm até hoje, seja com a tradicional missa do domingo às 7:30h, com as festas religiosas da cidade ou até mesmo com os ritos e cantos da Semana Santa.

Em 1733, foi fundada a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, hoje instalada na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar. A entidade foi criada principalmente para a organização e realização dos eventos da Quaresma, sendo responsável pelas missas, festas, procissões e eventos do período até os dias atuais. Há, também, a celebração de sua missa, às sextas-feiras às 19h.

Posteriormente, em 1749, criou-se a Venerável Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Assis. Pouco depois, a Ordem passa a planejar a construção de uma grande igreja para a substituição da pequena capela construída para o Santo. A nova igreja começa a ser erguida em 1774 sob os preceitos do Barroco Mineiro. Da sua construção, participaram grandes mestres, como Francisco de Lima Cerqueira, Aniceto de Souza Lopes e Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que foi o autor da entrada principal da igreja. A missa semanal da Ordem é celebrada às 9:15h dos domingos, mantendo, também, uma tradição secular.

Em plena atividade comercial e social no século 18, São João del-Rei presencia uma profusão de Ordens Terceiras e construção de grandiosas igrejas no estilo barroco. A cidade passa a se firmar como um dos principais redutos de manifestação política em Minas Gerais. É nesse clima que nasce na Fazenda do Pombal, em 1746, Joaquim José da Silva Xavier. Tiradentes, como ficou conhecido, mais tarde se tornou mártir da Inconfidência Mineira, movimento iniciado na região, especialmente em Vila Rica (atual Ouro Preto) em 1789.

Devido à vocação comercial de São João del-Rei, a sua feição colonial não é a mesma das demais vilas mineradoras da época. Seu amadurecimento comercial precoce faz com que, em 1838, a vila se tornasse uma cidade, possuindo cerca de 1600 casas, distribuídas entre 24 ruas e 10 praças.

É nessa época também que surge a imprensa na região, com a fundação, em 1827, do Astro de Minas, o segundo jornal de Minas Gerais na época. Além disso, a cidade também recebe uma casa bancária, hospital, biblioteca, serviço dos correios e até mesmo iluminação pública à base de querosene, algo incomum à época.

A segunda metade do século 19 é marcada por uma ascendência comercial e cultural devido a investimentos vindos de fora. Em 1881, é inaugurada a Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), que ligava a cidade a outros importantes centros através da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Em 1893, é instalada a Companhia Industrial São Joanense de Fiação e Tecelagem, fator que impulsionou o comércio local e rendeu ao município nova indicação para ser a capital de Minas Gerais.

Em junho do mesmo ano, o Congresso Mineiro Constituinte aprova, em primeira instância, a mudança da capital para a região da Várzea do Marçal, subúrbio de São João del-Rei. No entanto, uma segunda discussão é realizada e o projeto inclui Belo Horizonte, que, desde então, tornou-se a capital do estado.

O golpe foi duro para São João del-Rei, que perdeu muito de sua importância política e econômica e acabou estagnando durante os anos seguintes.

A partir do início do século 20, a cidade resolve apostar em cultura e turismo como forma de voltar a se sobressair e passa a divulgar suas igrejas, museus e estilo colonial. Em 1924, o município recebe a visita dos principais nomes dos modernistas brasileiros e é retratado em obras de alguns de seus principais nomes, como Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade.

Em 1943, seu acervo arquitetônico e artístico, composto por importantes edificações civis e religiosas, é tombado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SHAN, que mais tarde viria a ser tornar o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.

Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves, que nasceu e cresceu na cidade, é eleito Presidente do Brasil, mas adoece e morre antes de ser empossado.

Em 1996, a Estrada de Ferro Oeste de Minas entra para o Guiness Book como o mais antigo trem de passageiros ainda em funcionamento no Brasil.

Em 2002, A Funrei, faculdade formada a partir da união de outras três entidades de ensino superior – Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras; Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis e Faculdade de Engenharia Industrial – torna-se a Universidade Federal de São João del-Rei, dando novo impulso ao comércio e cultura locais.

No entanto, mesmo com a modernidade trazida pela Universidade e pelo comércio, o município se mantém atento às suas tradições, seja com a preservação dos rituais das entidades religiosas, seja com a preservação de suas bandas e orquestras – algumas com mais de 100 anos de existência, seja com a tradição oral, que é a principal responsável por manter durante tantas décadas os costumes da comunidade local.

Um exemplo da convergência desses fatores – tradição oral, religiosidade e musicalidade – pode ser observado na manutenção da Linguagem dos Sinos. Em São João del-Rei cada sino tem um nome e ele é gravado no processo de sua fundição. Esses sinos conversam entre si guiados pelos sineiros que seguem um costume que remonta a 1740, quando o Papa Bento XIV criou um toque usado para relembrar a morte de Jesus Cristo. O Bispo de Mariana o colocou em vigor em 1757 e ele é repicado até os dias atuais. Além deste, muitos outros toques foram criados ao longo dos anos, muitos pelos próprios sineiros, em uma tradição passada de pai para filho que fez com que a cidade ficasse conhecida como a “Terra onde os sinos falam”.

É nessa tradição oral que tem origem as lendas contadas nesse trabalho. Histórias passadas de geração para geração por décadas, algumas vezes com versões diferentes, mas com os principais pontos sempre convergindo num mesmo conto.

E o que as lendas são-joanenses têm em comum é o fato de todas terem como base direta ou indiretamente os princípios da Igreja Católica e a crença no bem e no mal. Como escreveu Lincoln de Souza:

Não passará despercebida, de certo, a um observador a interferência de Deus, dos santos, do demônio e dos defuntos na quase totalidade dessas lendas. Isto se explica pelo espírito profundamente religioso do povo mineiro, máxime do sanjoanense.

As histórias, no entanto, carecem de um registro moderno que favoreça a preservação e a facilite o acesso a essa cultura tanto para quem é da comunidade local, quanto para quem vem de fora.

Foi pensando nisso que esse trabalho foi desenvolvido: fazer um registro moderno e contextualizado das lendas, muitas vezes contando parte da história da cidade para que o interlocutor possa compreendê-la de forma adequada.

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