Mula sem cabeça

Venâncio voltava tarde do arraial do Rio das Mortes e estava quase a entrar na cidade quando ouviu, não longe, relinchos de alimária.

Por uma natural associação de idéias, pensou, incrédulo, nas mulas sem cabeça que – dizia-se – às sextas-feiras da quaresma, depois da meia-noite, erravam pelas encruzilhadas, deitando fogo e atacando os que encontravam em seu trajeto.

Aflito para chegar a casa (já havia batido meia-noite e era justamente uma sexta-feira da quaresma).

Venâncio caminhava então apressadamente quando, nas proximidades do cruzeiro do Betume, avistou uma tremenda mula sem cabeça, toda em chamas, que corria velozmente em sua direção.

Sem possibilidade de fuga, o animal em poucos segundos já estava a alguns metros de distância, Venâncio não teve outro recurso senão enfrentá-lo e, quando este o atacou, desferiu-lhe com a foice que trazia, e com a qual fora fazer uma roçada num sítio, um golpe tão certeiro e tão firme, que lhe fez voar longe a pata dianteira.

O monstro soltou um relincho terrível e desapareceu para as bandas do Rio das Mortes.

Pela manhã, soube Venâncio que, muito cedo, perto do local da sinistra ocorrência, encontraram sobre a relva a mão de uma mulher.

Como havia rastro de sangue, foram-no seguindo e, a uns duzentos metros, mais ou menos, deram com uma pobre lavadeira do bairro, caída de bruços numa vala, morta, uma perna partida e a mão direita decepada…

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