A Criança desaparecida

Em vão, durante todo o dia, aquele bando de escravos varava campos e matas, em todas as direções, à procura do filho mais novo dos senhores, que desde cedo desaparecera.

Durante a tarde inteira brincara com os irmãos, no pátio da fazenda – dizia-se – depois se afastara para os lados da senzala e, daquele momento em diante, ninguém mais lhe soube o paradeiro.

A noite, após baldada busca, em intervalos mais ou menos longos, de hora em hora assomava à velha porteira da fazenda um escravo cansado, faminto, coberto de pó, julgando que outro companheiro mais feliz já houvesse encontrado e conduzido a casa o pequeno fugitivo.

Era, porém, grande a surpresa quando iam ficando a par da triste realidade.

E todos foram voltando, todos – até o último…

Desceram ao fundo dos precipícios, galgaram serras, percorreram capoeiras e selvas, foram até a pirambeira perto da lavoura de café, sondaram todos os fundões do córrego, indagaram dos lavradores da redondeza, dos tropeiros da estrada: tudo inútil.

Ninguém o encontrara, ninguém o vira, ninguém!

A agonia da pobre mãe, mais do que a do pai, era indescritível. Soluçava, rezava, alucinada. Queria o filho, vivo ou morto, fosse como fosse – queria-o! Procuras-em-no mais, toda a vida, sempre!… – exclamava num pranto lancinante.

Não, não era possível, Deus, aquele pequenino anjo de três anos, perdido na noite imensa, na mata imensa, povoada de felinos sanguinários! … E, quando, com infinita dificuldade, a impediam de sair, como uma louca, para talvez lançar-se no despenhadeiro da divisa, eis que ouviram, lá fora, uma voz débil, quase imperceptível, de criança.

Era ele! Era ele que voltava, assim mesmo como pela manhã, lindo, limpo, cabeceando de sono e pedindo à mãe que o fizesse dormir.

Em vão, crivaram-no de perguntas.

Foi uma moça, mãe… – e não sabia dizer mais nada.

No domingo seguinte, toda a família dirigiu-se ao arraial para, como de costume, ouvir missa.

Penetraram no modesto templo rural. Desta vez cem mais fervor, porque iam dar também graças a Deus pelo verdadeiro milagre, que fora a reconquista do ente querido já dado como morto.

Na igreja, os olhinhos espertos do garoto passeavam distraídos pelos anjos dourados das paredes, pelos painéis apocalípticos do fôrro, pelos ornamentos fulgurantes dos nichos…

Eis senão quando, cheios de infantil surpresa, viram lá longe, lá longe…

-Mãe!… – e puxou-lhe de leve o vestido de cassa. – Olha: está lá a moça que me levou para casa!

Onde, meu filho? Onde? E levantou depressa a vista do rosário, na ânsia de conhecer a criatura que, de tão nobre, nem lhe quisera aparecer para o abraço comovido de gratidão.

-Está lá, mãe… lá em cima… Olha!…

E o pequenino indicador do inocente, com assombro de todos, apontou, no altar-mor, a imagem de Nossa Senhora das Graças que, no seu nicho todo azul, banhada na luz pálida dos círios, envolta em seu manto de estrelas, parecia sorrir…

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