O Segredo

Rogério era um jovem comerciante que morava atrás da Igreja de São Gonçalo Garcia, localizada na Praça dos Expedicionários, em São João del-Rei. O rapaz era uma pessoa conhecida por sua generosidade, já sua esposa, dona Jacinta, era totalmente o oposto, sendo famosa pelas maldades que fazia com os escravos que possuíam.

Certo dia, Rogério comprou um lote de cativos, selecionou alguns e levou para o sobrado em que vivia com a esposa. Entre eles, estava uma bela e jovem mulata chamada Julieta, que logo ganhou a atenção do homem.

Atraído por sua beleza, ele começou a trata-la de forma diferenciada, muitas vezes dando até pequenos presentes e mimos para a moça. Jacinta, sua mulher, ficou extremamente enciumada. Foi falar com o marido e exigiu a venda da jovem, mas ele negou com firmeza, ainda que negasse qualquer interesse especial na escrava.

A esposa se conteve apesar de toda a raiva que sentia e concordou com o marido. Dali em diante, passou a espioná-lo a fim de confirmar suas suspeitas. Logo ficou sabendo que Rogério tinha sim um caso com Julieta e que a escrava até dormia com ele algumas noites quando ele dizia que ia viajar a negócios. Apesar disso, Jacinta nada disse, não falou nem de vendê-la mais.

Quando chegou o aniversário do marido, quis, ela mesma, preparar o jantar. Preparou um imenso banquete, cheio de iguarias e bebidas.

Entre todos os pratos servidos, um agradou em especial a Rogério. Foi um picadinho de coração, que ele comeu e repetiu, satisfeito, em meio a enormes taças de vinho. O rapaz comeu bastante e se deitou satisfeito.

No dia seguinte, foi procurar Julieta, mas não a encontrou em parte alguma. Suspeitando de que a mulher pudesse ter vendido a escrava sem o seu consentimento, foi  confrontá-la. Com enorme frieza, a mulher respondeu ao marido que o coração da escrava ele já tinha comido e adorado, e que o resto ela não sabia, que perguntasse a Bento, que era o era conhecido por ser muito cruel e também o escravo preferido de Jacinta.

Rogério saiu apavorado tentando saber tudo que acontecera. Aos poucos, outros cativos foram lhe contando o que sabiam. Tudo tinha sido feito em sigilo, mas era difícil esconder tamanha desgraça dos outros escravos. Eles tinha visto Julieta ir com Bento até um local próximo da cisterna.

Jacinta juntou um grupo e amarrou Julieta. Com a bela moça ainda viva, abriu seu peito e retirou seu coração. Enterraram-na ali mesmo, onde o crime se consumara.

A todos que perguntavam a Bento o que tinha ido fazer com Julieta lá nos lados da cisterna, ele, com um cínico sorriso respondia: é um segredo.

O local onde a tragédia aconteceu ficou conhecido desde então como “O Segredo”, denominação que mais tarde se estendeu para todo o bairro ao redor e se conserva até os dias atuais.

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1 comentário

  1. É impressionante como a história da escrava que desperta a ira da mulher de seu dono em função de privilégios concedidos por este àquela se repete.
    O desfecho me lembrou de Hannibal.

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