O Sacrílego

Já era madrugada e o Padre Antônio dormia quando ouviu alguém o chamando à porta de sua casa. Sonolento, o sacerdote foi atender o homem, que de tão aflito, misturava as palavras e se embolava em seus gestos.

Padre Antônio pediu que ele se acalmasse e lhe disse o que se passava. O desconhecido então se desculpou pelo horário e lhe disse que era caso de vida ou morte, de salvar uma alma.

Assustado, o padre falou que não se preocupasse com a hora e que estava feliz em ajudar, e perguntou-lhe onde estava a pessoa que precisava de auxílio.

O rapaz rapidamente respondeu que estava na Igreja de São Francisco, que era um pecador que, momentos antes de morrer, havia se comungado sem confessar. O que ele pedia era que o Padre Antônio fizesse a bondade de retirar a hóstia da boca do cadáver, que, segundo o pedinte, não havia se desfeito na boca do defunto.

Igreja de São Francisco (foto de Kiko Neto)

Igreja de São Francisco (foto de Kiko Neto)

O sacerdote se arrumou correndo e partiu para a igreja acompanhado do rapaz e com o pressentimento de que algo estranho estava acontecendo.

Quando chegaram ao Largo de São Francisco, puderam ver a igreja toda iluminada, como tradicionalmente ficava nas noites de festa.

Entraram e a encontraram vazia. Bem no centro da nave estava um simples caixão, sem ornamentos ou flores. Padre Antônio se dirigiu a ele, levantou a tampa e com muito custou abriu o enrijecido maxilar do defunto.

Dentro, encontrou a hóstia em perfeito estado. O sacerdote pegou-a, levou-a ao altar e se pôs a rezar pela alma do pobre falecido. Quando levantou-se, não viu mais o homem que lhe acompanhara até a igreja.

Antes de sair, foi dar uma última olhada no defunto e ficou assombrado ao perceber que as duas pessoas eram idênticas, como se fossem uma só.

Padre Antônio saiu do templo e só quando já estava na rua, percebeu que não vira sequer o sacristão naquela noite. Intrigado, olhou para trás em direção a igreja e, para seu espanto, ela já se encontrava totalmente fechada e com as luzes apagadas.

O religioso resolveu ir embora e seguiu rua abaixo, em direção à sua casa no Bairro Tijuco. Foi então que ouviu o mesmo homem lhe chamando novamente, e dizendo-lhe que esquecera de lhe agradecer por tudo.

Quando pegou em sua mão, Padre Antônio a sentiu terrivelmente fria e rígida, os olhos baixos e semicerrados. Nesse momento, o sacerdote teve certeza que o corpo que vira antes era daquele mesmo homem.

Apavorado, o padre não conseguiu esboçar reação alguma enquanto via o estranho indivíduo ficar cada vez mais pálido, até tornar-se uma fraca névoa e desaparecer rapidamente ali mesmo, diante de seus olhos.

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1 comentário

  1. Comecei esse achando graça porque consegui imaginar alguém pedindo para o padre retirar a hóstia da boca de um pecador.

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