O defunto que o Diabo levou

São João del – Rei, segunda metade do século 19.

Igreja do Carmo ao fundo. (foto de Kiko Neto)

Igreja do Carmo ao fundo. (foto de Kiko Neto)

Soldado reformado da antiga Guarda Nacional, coronel Carlota morava num enorme casarão nas proximidades da Igreja do Carmo junto com sua esposa e filhos. Apesar de falar muito em Deus e andar sempre com seu crucifixo, o coronel ficou conhecido foi por ser maldoso e vingativo com todos a sua volta.

Sua fortuna não fora construída com o salário de soldado, mas sim com os lucros obtidos com o tráfico ilegal de escravos, negócio que realizou com sucesso durante toda a primeira metade do século. Dizia-se que escravo nenhum sofria tanto quanto os que caíam em suas mãos. Carlota os torturava pelo puro prazer de vê-los sofrer.

No entanto, quem mais penava nas mãos do coronel era a própria família. Alvo de seus caprichos e vontades. Ninguém podia contestar a vontade do velho, que ficava cada dia mais difícil de agradar.

Certa vez, resolveu que era hora da filha mais velha se casar. Arrumou para ela um amigo que além de velho, era muito doente. O interesse de Carlota era somente na imensa quantidade de ouro que o pretendente possuía. A filha do coronel se revoltou e recusou o casamento forçado, dizendo que preferia morrer a casar com o homem. O coronel então providenciou para que isso acontecesse, envenenando-a pouco tempo depois do acontecido.

A população da cidade ficou chocada. O homem passou a ser evitado onde quer que fosse.  Até mesmo os antigos amigos foram se afastando.

Foi então que o Coronel Carlota decidiu sair em uma nova empreitada pelo sertão, a fim de fazer novos negócios. Mas o destino não permitiu e o velho homem morreu na véspera da viagem.

A cidade recebeu a notícia de sua morte com uma discreta satisfação. Ninguém tinha muita estima pelo coronel que fora tão maldoso com tanta gente.

O velório foi realizado no segundo andar de seu sobrado, mas poucas pessoas subiram as escadas para lhe dar um último adeus.  Em determinado momento, a sala chegou a ficar vazia, sem ninguém a guardar o defunto.

Quando seu filho retornou a sala, ficou surpreso ao encontrar o caixão vazio. O corpo havia simplesmente desaparecido!

A família espantada com o fato vasculhou a casa, mas nada encontrou. Não havia nenhuma explicação para o misterioso desaparecimento.  Assustados com tudo aquilo e a fim de evitar um escândalo, os familiares decidiram colocar um grosso tronco de bananeira no caixão para fazer peso, e então o fecharam.

Se alguém perguntava por que o caixão se encontrava fechado, respondiam que a doença e a idade estavam fazendo com que o corpo se decompusesse muito rápido, por isso deveria ficar lacrado. O funeral aconteceu naquela mesma tarde e o caixão foi acompanhado apenas por alguns parentes.

No entanto, naquela mesma noite, há quem diga ter avistado numa longínqua encruzilhada um enorme cavalo. O animal era montado por um cavaleiro muito alto e magro, que usava esporas brilhantes em meio àquela escuridão.

O cavalo passou correndo desgovernado e seguiu pelo caminho. Na sua garupa, envolto em um manto esvoaçante, jazia inerte o cadáver do coronel Carlota.

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3 comentários

  1. A edição está muito boa em todos eles, mas a sonoplastia/narração desse está especialmente bacana.

  2. adorei sempre e bom conhecer um pouco mais de nossa historia e gosto muito de saber a historia da minha cidade adorei muito bom mesmo parabens

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