Chica Mal Acabada

Francisca das Dores nasceu em São João del-Rei, cidade histórica do interior de Minas Gerais. Desde pequena, Chica, como preferia, sofreu com as brincadeiras maldosas de outras crianças, por causa de uma má formação de seu corpo. Ela tinha altura reduzida, similar à altura dos anões, e as feições grossas e mal definidas.

Quando cresceu, não se livrou do apelido da infância e passou a ser chamada por todos de Chica Mal Acabada.

Não era má pessoa, mas cresceu com uma insegurança marcante, provavelmente devido à sua condição física e todo o desconforto que sua aparência gerava. Também por isso, sempre fora uma pessoa introspectiva, tímida. Demorou muito para que Chica se relacionasse com alguém.

Quis o destino que ela conhecesse um moço um pouco mais velho, mais maduro, de quem aos poucos foi se aproximando e se apaixonando. A recíproca aconteceu e em pouco tempo os dois já estavam namorando, para espanto da comunidade local.

O rapaz dificilmente passaria despercebido, pois além de muito bonito, era muito talentoso e tocava violino no coro da Igreja. Chica sabia disso e, mesmo diante de todas as juras de amor feitas por ele, ela morria de ciúmes e medo de ser traída.

Nem mesmo na missa, a mulher se aquietava. Chegou ao ponto de espiar o amante enquanto esse confessava e, ao invés de ouvir atentamente as palavras do padre, escondia um pequeno espelho em meio aos seus livros de orações, para que pudesse, enquanto fingia rezar, vigiar o rapaz que ficava sentado sempre no coro.

Certo dia, enquanto observava o namorado durante uma das orações, foi surpreendida por uma amiga que imediatamente entendeu o intuito daquele espelho. Diante daquela situação, a amiga lhe avisou do tamanho pecado que a moça cometia e que devia parar com aquilo, afinal Deus podia castiga-la.

Chica Mal-Acabada achou graça, debochou da moça e foi embora rindo.

Por mais algum tempo, continuou com o mesmo ritual: escondia o espelho e vigiava o rapaz.

Mas certo domingo, durante a missa das sete, viu no espelho algo simplesmente horrível, indescritível.

Aterrorizada, Chica gritou de forma estridente, rolou no chão e por fim desmaiou. Durante algum tempo, ela ficou assim, inconsciente, imóvel. Depois foi levada para casa ainda sem sentidos e alguns dias se passaram até que voltasse a si.

Quando recuperou a consciência, não teve mais sossego. Passou a ver em todos os lugares aquela mesma imagem diabólica, que a perseguia onde quer que fosse.

Chica não pode ser controlada e teve que ser levada para o “Pavilhão dos Loucos”, na Santa Casa da Misericórdia. Seu estado era sofrível. Às vezes, quando recebia visitas, estava conversando calmamente com uma amiga, quando de repente punha as mãos sobre os olhos e rolava pelo chão sempre a gritar repetindo a mesma coisa: “é ele!”.

Isso tudo constantemente seguido de uma crise tremenda, na qual Chica Mal-Acabada espumava pela boca, mordia-se, batia a cabeça contra paredes ou o próprio chão, rasgava as próprias roupas e por fim desmaiava. Às vezes ficava inconsciente por horas a fio.

Nem mesmo a presença de padres, benzedeiras, amuletos trazidos pelo amante e feitos por feiticeiros… nada ajudava na situação da pobre moça, que tinha crises cada vez piores. Quando chegava a noite, era comum que guardas precisassem socorrê-la e segurá-la para que não cometesse desatinos.

Seu estado era lastimável e, três meses após a internação, Chica já era praticamente um cadáver. Para piorar tudo, uma forte pneumonia a atacou e enfraqueceu ainda mais seu já cansado corpo.

Foi então que a derradeira crise aconteceu. Sofrendo de uma febre violentíssima e já exaurida, viu novamente a terrível imagem. Sob os costumeiros gritos de “é ele!”, a Mal Acabada saltou da cama e, antes que qualquer pessoa pudesse contê-la, enfiou furiosamente os dedos nas órbitas, arrancou o olho direito, depois o esquerdo, e os esmagou em meio às suas mãos cheias de sangue.

Os presentes, paralisados com tudo aquilo, ficaram ainda mais chocados ao verem a mulher dando profundas gargalhadas, num prazer sobre-humano.

Por fim, com aquelas sombra no rosto, ensanguentada e exausta, Chica morreu ali mesmo, diante de todos.

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