A Casa da Pedra

Morava na São João del-Rei colonial um jovem trabalhador chamado Gil, que apesar de não ter muitas riquezas, era conhecido por  ser esforçado e bondoso. O rapaz, certo dia, presenciou um conflito entre um grupo de paulistas e índios que habitavam a região. Ao ver feridos um pai e sua filha, se arriscou para salvar-lhes a vida e tirá-los do meio da disputa. Seus nomes eram Irabuçu e Judaíba.

A partir de então, Gil enriqueceu repentinamente, passou a ter cada dia mais posses e pessoas trabalhando para si. Surgiram boatos de que toda aquela riqueza era fruto de uma mina repleta de ouro que só o velho índio conhecia.

No entanto, um português conhecido como Minhoto, passou a invejar Gil. Decidiu então armar uma cilada para pegar o índio e forçá-lo a indicar onde ficava a mina.

Contratou outros portugueses para ajudá-lo na empreitada e se puseram a caçar Irabuçu. Certa vez o cercaram, mas ele pulou na mata e desapareceu. De lá, só saiu um enorme gato do mato, que espantou seus perseguidores de vez e os fez fugir de medo, crendo que o índio se transformara no animal.

Minhoto então decidiu pedir ajuda a Fernando, capitão-mor da época. E contou-lhe de todo o ouro que podia haver na mina. Para desespero do português, Fernando respondeu-lhe que todo o ouro pertencia ao rei, e ninguém além desse poderia ter o direito de usufruí-lo. Depois, mandou que seus homens saíssem para formalmente prender o índio na casa de Gil.

Irabuçu foi preso e levado à presença do capitão-mor, mas se negou a falar do ouro ou levá-los a mina. Bateram no índio e tentaram de toda forma obter as informações, mas ele não recuava. Só conseguiram que ele concordasse quando trouxeram Judaíba, sua filha, e ameaçaram torturá-la.

Irabuçu caminhou com os guardas durante quilômetros para despistá-los. Quando a noite chegou, parou em frente a uma grande gruta, que depois ficou conhecida como a Casa da Pedra.

Fizeram uma fogueira na entrada e acenderam tochas. O índio conduziu todos para o interior da gruta, lá a escuridão era tanta que os portugueses tomados pelo medo puseram-se a rezar.

O grupo seguiu pelo caminho indicado por Irabuçu até um enorme salão circular, encimado por uma abóbada, em formato semelhante a uma rotunda.

Com os pequenos feixes de luz foi possível observar pedras que pareciam ter sido esculpidas a mão, imensas raízes de gigantescas árvores, estalactites e até mesmo enormes e grossas cordas pendendo do alto do salão, como para formar uma cortina e ocultar os mistérios daquele maravilhoso santuário.

Quando conseguiram acender outras tochas, puderam ver a imensa quantidade de ouro e pedras contida no interior do local. Os portugueses ficaram imóveis, assombrados com tudo aquilo. Uns até duvidavam de que pudesse ser real.

O índio os tirou daquele transe avisando que deviam avançar por outro corredor, o maior deles. Os homens avançaram distraídos e maravilhados com as belezas que iam vendo no caminho, até que um potente grito os fez pular de susto.

TUPASSUMUNGA, bradara Irabuçu com toda a força de seus pulmões. Imediatamente duas enormes onças saíram dos fundos, passaram correndo entre os guardas e desapareceram novamente na escuridão.

Vendo os congelados de susto, o índio sorriu calmamente e explicou que os gatinhos, como ele se referia as onças, moravam ali e eram os vigias do ouro de Tupã. E que o grito tinha sido dado para que eles saíssem e não lhes causassem mal algum.

As palavras mais aterrorizaram do que apaziguaram a alma dos portugueses, que, temendo por suas vidas, não queriam dar mais nem um passo adiante. Irabuçu explicou-lhes que tanto fazia estarem ali ou mais adiante, pois se fossem morrer ali dentro, o local não faria diferença. Como quem já não tem mais nada a perder, os portugueses criaram coragem novamente e seguiram o caminho durante o que lhes pareceu serem horas.

Chegaram a uma pequena passagem, na qual era difícil de passar até abaixado. O índio parou e  disse que aquela era a entrada para a verdadeira mina. Os homens assustados se recusaram a entrar. Foi aí que caiu entre eles uma jiboia de mais de um metro de comprimento tão grossa quanto a perna de um homem. A cobra rapidamente se esgueirou entre eles e voltou a se esconder nas trevas.

Naquele momento, rezas eram ouvidas por todo lado, especialmente a São Bento, protetor contra animais peçonhentos. Alguns dos guardas já quase choravam de tanto pavor e pediam incessantemente que o velho índio os tirasse de dentro da gruta.

Irabuçu, novamente com um sorriso no rosto, respondeu que a jiboia não era venenosa, mas que ali havia muitas dela e que se eles dessem um tiro para o alto, as cobras seriam espantadas.

Um dos trêmulos guardas pegou a escopeta e deu um tiro para o auto. O disparo ecoou por toda a gruta, ressoando várias vezes. O ar ficou agitado e de repente uma nuvem de morcegos e corujas tomou cada canto do local.

Com toda aquela bagunça, as tochas acabaram por se apagar e todos se viram subitamente mergulhados na escuridão. Ao fundo, ainda ouvia-se os ecos do tiro, que agora parecia uma fúnebre canção.

Os portugueses tropeçavam entre si, trombavam com bandos de animais, numa confusão sem fim. E gritavam desesperados pedindo ajuda a Irabuçu.

Mas, como resposta, só tinham os ecos da caverna.

Muitos anos mais tarde, um grupo que estudava as minas da região encontrou a gruta. Estavam explorando seu interior quando, em uma sala muito estreita e profundamente escura, encontraram espalhados pelo chão os ossos daquele grupo que um dia quis tirar todo o ouro da Casa da Pedra.

Anúncios

3 comentários

  1. Nossa!!! Gostei muito mesmo dessa lenda. Achei o desenrolar surpreendente. É impressionante como determinadas coisas nunca mudam (com ou sem lendas).

    1. Algumas coisas nunca mudam. Essa lenda, no entanto, tem outra peculiaridade: é a única que não deriva de moral cristã, tendo sua origem em histórias indígenas.

Diga o que achou!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s