Irmão Moreira

 

Francisco Moreira da Rocha veio de uma das mais tradicionais famílias de São João del-Rei. Cresceu com a confiança e o charme característicos de quem teve um berço de ouro e uma educação distinta.

Francisco se tornou um boêmio inveterado, esbanjando a fortuna que herdara de sua família com mulheres fáceis, bebida e jogos de azar. Vivia entre uma noite e outra, entre uma farra e outra.

Ficou conhecido por toda a cidade. Pais de família passaram a evitar que se aproximasse de suas filhas. Onde quer que fosse, sua fama e as histórias de suas aventuras escandalosas chegavam primeiro. Ele parecia não se importar e até se divertia quando lhe perguntavam se um dia não sairia daquela vida.

Rua da Cachaça (foto de Kiko Neto)

Rua da Cachaça (foto de Kiko Neto)

Certa madrugada saindo da Rua da Cachaça e vagando pela região do Largo do Carmo, que na época tinha uma vida noturna bastante agitada, Francisco se viu diante de uma bela mulher, que imediatamente lhe encantou.

Ela vestia um longo vestido preto, tinha olhos escuros e profundos e andava com uma elegância única. Francisco a cumprimentou. A mulher nada falou, mas sorriu para ele e depois voltou a caminhar.

O boêmio a seguiu sem perceber por onde andava. Entraram na casa da misteriosa mulher e, entre diversas plantas e grandes placas de mármore, deitaram-se em uma enorme cama cheia de plumas e lençóis. Apesar do silêncio da moça, passaram a noite juntos e, ali mesmo, Francisco Moreira adormeceu confortavelmente.

Lápides e túmulos do Cemitério do Carmo

Lápides e túmulos do Cemitério do Carmo

Mas na manhã seguinte, ele acordou com o corpo muito dolorido, exausto. Como quem sai lentamente de um transe, Francisco não conseguia compreender exatamente o que tinha acontecido, nem porque estava em cima de uma dura lousa e não no agradável leito em que havia se deitado na noite anterior.

Foi então que se deu conta de que não estava em casa nenhuma e sim sobre uma lápide de mármore no Cemitério do Carmo. As plantas de que se lembrava, eram na verdade os ciprestes que cresceram ao redor dos túmulos. As paredes brancas eram os grandes muros que cercam o local.

No mesmo instante, Francisco teve a certeza que a mulher com quem havia dormido só podia ser o Diabo, que o enganara e que talvez já tivesse até roubado sua alma.

Apavorado, deixou o cemitério e foi direto à Igreja do Carmo procurar um padre para tentar entender tudo o que se passara. Mais tarde, muito arrependido da vida cheia de pecados que estava vivendo, confessou-se com o sacerdote e prometeu com sinceridade mudar de vida.

A partir desse dia, Francisco Moreira da Rocha passaria a ser conhecido apenas como Irmão Moreira. Daí em diante, todas as suas ações seriam baseadas em uma vida mais pura, cheia de moral e respeito.

O ex-boêmio abandonou tudo o que o ligava àquela vida desregrada. Vendeu suas posses, foi ao banco e retirou todo o resto de sua fortuna, distribuiu tudo o que possuía entre os pobres, instituições de caridade e hospitais da cidade e da região.

Pintura à óleo retrata o Irmão Moreira

Pintura à óleo retrata o Irmão Moreira

Irmão Moreira passou a viajar pregando a palavra de Deus, ajudando pobres, necessitados e doentes. Dedicou-se ao bem até o fim de sua vida. Há relatos de que tornou-se capaz de curar os enfermos apenas com o toque de suas mãos, assim como o próprio Jesus foi capaz de fazer.

Já em idade avançada, Irmão Moreira foi retratado em um quadro de pintura a óleo. O quadro pode ser encontrado na Santa Casa da Misericórdia de sua cidade natal, instituição da qual foi benfeitor por mais de meio século.

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