A Bisbilhoteira

Gertrudes, ou Tia Tude, como ficou conhecida, era uma senhora que já passava dos 70 anos e morava num humilde casabre no Morro da Forca. A velha vivia com o trabalho de rendeira, além de fazer enormes bonecos de panos com retalhos e trapos que conseguia com as costureiras. Mas ela era conhecida mesmo por outras duas atividades que tomavam a maior parte de seu tempo: as visitas à Igreja e o cuidado que tinha com a vida alheia.

Tia Tude começava sua rotina logo cedo, com a Missa do Carmo. Com seus cabelos brancos cuidadosamente arrumados, ela ia todas as manhãs para a igreja, benzia-se na água benta e se ajoelhava para passar conta por conta do Rosário. Ali mesmo já assistia a primeira missa do dia. Quando acabava, envolvia-se novamente em seu xale e caminhava lentamente rumo a igreja Matriz, onde acompanhava outra celebração. Não passava um dia sem se comungar e dificilmente faltava à confissão. A velha não perdia nada, novena, reza, terço… Até os padres já começavam a se sentir incomodados com a beata.

Quando saía da igreja, Gertrudes se punha a andar pelo bairro. Entrava em tudo que era casa, conversava com todos, tomava um café aqui, comia um bolo ali, era comum até que almoçasse cada dia em um lugar. E onde quer que fosse, a velha falava. E falava de tudo e todos, nada passava desapercebido. A velha conhecia até os segredos mais íntimos dos vizinhos.

Beco da MatrizNão contente com tudo que observava, e por vezes até tomava nota, durante o dia, Tia Tude começou a passar as noites observando escondida atrás das persianas de sua casa. Nada lhe escapava. Ouvia as conversas, as confissões, as declarações de amor. E contava pra todos. Passava a fofoca adiante sem o menor constrangimento.

Certa noite, enquanto observava escondida atrás das cortinas, ouviu baterem à sua porta. Gertrudes caminhou lenta e silenciosamente para os fundos da casa e, de lá, voltou pisando forte e fazendo barulho, a fim de disfarçar que estivera espiando pela janela.

A velha perguntou quem era e o homem respondeu que era apenas um andarilho que ela não conhecia, mas que queria pedir apenas um favor, que ela guardasse um objeto até o dia seguinte.

Curiosa como era, Tia Tude esticou o braço e recolheu o estranho embrulho. Abriu e viu que era uma tocha. Intrigada, a velha certificou-se de trancar a porta antes de ir para seu quarto. O relógio bateu meia noite quando ela se deitava.

Na manhã seguinte, como de costume, Gertrudes acordou cedo para seu ritual matinal, mas a primeira coisa que fez foi correr os olhos pela sala em busca do objeto.

A mulher quase desmaiou quando percebeu que no lugar da tocha que havia sido deixada pelo misterioso desconhecido na noite anterior, agora se encontrava um osso humano, nada menos do que um fêmur provavelmente tirado de um defunto, ainda sujo de terra fresca.

Ela ficou apavorada e correu pra igreja já rezando. Passou a manhã toda ali, como em transe.  Tia Tude encarou aquilo tudo como um aviso celeste.

Conta-se que daquele dia em diante, Gertrudes nunca mais abriu a boca para falar da vida alheia.

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