Mês: fevereiro 2014

A Casa da Pedra

Morava na São João del-Rei colonial um jovem trabalhador chamado Gil, que apesar de não ter muitas riquezas, era conhecido por  ser esforçado e bondoso. O rapaz, certo dia, presenciou um conflito entre um grupo de paulistas e índios que habitavam a região. Ao ver feridos um pai e sua filha, se arriscou para salvar-lhes a vida e tirá-los do meio da disputa. Seus nomes eram Irabuçu e Judaíba.

A partir de então, Gil enriqueceu repentinamente, passou a ter cada dia mais posses e pessoas trabalhando para si. Surgiram boatos de que toda aquela riqueza era fruto de uma mina repleta de ouro que só o velho índio conhecia.

No entanto, um português conhecido como Minhoto, passou a invejar Gil. Decidiu então armar uma cilada para pegar o índio e forçá-lo a indicar onde ficava a mina.

Contratou outros portugueses para ajudá-lo na empreitada e se puseram a caçar Irabuçu. Certa vez o cercaram, mas ele pulou na mata e desapareceu. De lá, só saiu um enorme gato do mato, que espantou seus perseguidores de vez e os fez fugir de medo, crendo que o índio se transformara no animal.

Minhoto então decidiu pedir ajuda a Fernando, capitão-mor da época. E contou-lhe de todo o ouro que podia haver na mina. Para desespero do português, Fernando respondeu-lhe que todo o ouro pertencia ao rei, e ninguém além desse poderia ter o direito de usufruí-lo. Depois, mandou que seus homens saíssem para formalmente prender o índio na casa de Gil.

Irabuçu foi preso e levado à presença do capitão-mor, mas se negou a falar do ouro ou levá-los a mina. Bateram no índio e tentaram de toda forma obter as informações, mas ele não recuava. Só conseguiram que ele concordasse quando trouxeram Judaíba, sua filha, e ameaçaram torturá-la.

Irabuçu caminhou com os guardas durante quilômetros para despistá-los. Quando a noite chegou, parou em frente a uma grande gruta, que depois ficou conhecida como a Casa da Pedra.

Fizeram uma fogueira na entrada e acenderam tochas. O índio conduziu todos para o interior da gruta, lá a escuridão era tanta que os portugueses tomados pelo medo puseram-se a rezar.

O grupo seguiu pelo caminho indicado por Irabuçu até um enorme salão circular, encimado por uma abóbada, em formato semelhante a uma rotunda.

Com os pequenos feixes de luz foi possível observar pedras que pareciam ter sido esculpidas a mão, imensas raízes de gigantescas árvores, estalactites e até mesmo enormes e grossas cordas pendendo do alto do salão, como para formar uma cortina e ocultar os mistérios daquele maravilhoso santuário.

Quando conseguiram acender outras tochas, puderam ver a imensa quantidade de ouro e pedras contida no interior do local. Os portugueses ficaram imóveis, assombrados com tudo aquilo. Uns até duvidavam de que pudesse ser real.

O índio os tirou daquele transe avisando que deviam avançar por outro corredor, o maior deles. Os homens avançaram distraídos e maravilhados com as belezas que iam vendo no caminho, até que um potente grito os fez pular de susto.

TUPASSUMUNGA, bradara Irabuçu com toda a força de seus pulmões. Imediatamente duas enormes onças saíram dos fundos, passaram correndo entre os guardas e desapareceram novamente na escuridão.

Vendo os congelados de susto, o índio sorriu calmamente e explicou que os gatinhos, como ele se referia as onças, moravam ali e eram os vigias do ouro de Tupã. E que o grito tinha sido dado para que eles saíssem e não lhes causassem mal algum.

As palavras mais aterrorizaram do que apaziguaram a alma dos portugueses, que, temendo por suas vidas, não queriam dar mais nem um passo adiante. Irabuçu explicou-lhes que tanto fazia estarem ali ou mais adiante, pois se fossem morrer ali dentro, o local não faria diferença. Como quem já não tem mais nada a perder, os portugueses criaram coragem novamente e seguiram o caminho durante o que lhes pareceu serem horas.

Chegaram a uma pequena passagem, na qual era difícil de passar até abaixado. O índio parou e  disse que aquela era a entrada para a verdadeira mina. Os homens assustados se recusaram a entrar. Foi aí que caiu entre eles uma jiboia de mais de um metro de comprimento tão grossa quanto a perna de um homem. A cobra rapidamente se esgueirou entre eles e voltou a se esconder nas trevas.

Naquele momento, rezas eram ouvidas por todo lado, especialmente a São Bento, protetor contra animais peçonhentos. Alguns dos guardas já quase choravam de tanto pavor e pediam incessantemente que o velho índio os tirasse de dentro da gruta.

Irabuçu, novamente com um sorriso no rosto, respondeu que a jiboia não era venenosa, mas que ali havia muitas dela e que se eles dessem um tiro para o alto, as cobras seriam espantadas.

Um dos trêmulos guardas pegou a escopeta e deu um tiro para o auto. O disparo ecoou por toda a gruta, ressoando várias vezes. O ar ficou agitado e de repente uma nuvem de morcegos e corujas tomou cada canto do local.

Com toda aquela bagunça, as tochas acabaram por se apagar e todos se viram subitamente mergulhados na escuridão. Ao fundo, ainda ouvia-se os ecos do tiro, que agora parecia uma fúnebre canção.

Os portugueses tropeçavam entre si, trombavam com bandos de animais, numa confusão sem fim. E gritavam desesperados pedindo ajuda a Irabuçu.

Mas, como resposta, só tinham os ecos da caverna.

Muitos anos mais tarde, um grupo que estudava as minas da região encontrou a gruta. Estavam explorando seu interior quando, em uma sala muito estreita e profundamente escura, encontraram espalhados pelo chão os ossos daquele grupo que um dia quis tirar todo o ouro da Casa da Pedra.

O Segredo

Rogério era um jovem comerciante que morava atrás da Igreja de São Gonçalo Garcia, localizada na Praça dos Expedicionários, em São João del-Rei. O rapaz era uma pessoa conhecida por sua generosidade, já sua esposa, dona Jacinta, era totalmente o oposto, sendo famosa pelas maldades que fazia com os escravos que possuíam.

Certo dia, Rogério comprou um lote de cativos, selecionou alguns e levou para o sobrado em que vivia com a esposa. Entre eles, estava uma bela e jovem mulata chamada Julieta, que logo ganhou a atenção do homem.

Atraído por sua beleza, ele começou a trata-la de forma diferenciada, muitas vezes dando até pequenos presentes e mimos para a moça. Jacinta, sua mulher, ficou extremamente enciumada. Foi falar com o marido e exigiu a venda da jovem, mas ele negou com firmeza, ainda que negasse qualquer interesse especial na escrava.

A esposa se conteve apesar de toda a raiva que sentia e concordou com o marido. Dali em diante, passou a espioná-lo a fim de confirmar suas suspeitas. Logo ficou sabendo que Rogério tinha sim um caso com Julieta e que a escrava até dormia com ele algumas noites quando ele dizia que ia viajar a negócios. Apesar disso, Jacinta nada disse, não falou nem de vendê-la mais.

Quando chegou o aniversário do marido, quis, ela mesma, preparar o jantar. Preparou um imenso banquete, cheio de iguarias e bebidas.

Entre todos os pratos servidos, um agradou em especial a Rogério. Foi um picadinho de coração, que ele comeu e repetiu, satisfeito, em meio a enormes taças de vinho. O rapaz comeu bastante e se deitou satisfeito.

No dia seguinte, foi procurar Julieta, mas não a encontrou em parte alguma. Suspeitando de que a mulher pudesse ter vendido a escrava sem o seu consentimento, foi  confrontá-la. Com enorme frieza, a mulher respondeu ao marido que o coração da escrava ele já tinha comido e adorado, e que o resto ela não sabia, que perguntasse a Bento, que era o era conhecido por ser muito cruel e também o escravo preferido de Jacinta.

Rogério saiu apavorado tentando saber tudo que acontecera. Aos poucos, outros cativos foram lhe contando o que sabiam. Tudo tinha sido feito em sigilo, mas era difícil esconder tamanha desgraça dos outros escravos. Eles tinha visto Julieta ir com Bento até um local próximo da cisterna.

Jacinta juntou um grupo e amarrou Julieta. Com a bela moça ainda viva, abriu seu peito e retirou seu coração. Enterraram-na ali mesmo, onde o crime se consumara.

A todos que perguntavam a Bento o que tinha ido fazer com Julieta lá nos lados da cisterna, ele, com um cínico sorriso respondia: é um segredo.

O local onde a tragédia aconteceu ficou conhecido desde então como “O Segredo”, denominação que mais tarde se estendeu para todo o bairro ao redor e se conserva até os dias atuais.

Chica Mal Acabada

Francisca das Dores nasceu em São João del-Rei, cidade histórica do interior de Minas Gerais. Desde pequena, Chica, como preferia, sofreu com as brincadeiras maldosas de outras crianças, por causa de uma má formação de seu corpo. Ela tinha altura reduzida, similar à altura dos anões, e as feições grossas e mal definidas.

Quando cresceu, não se livrou do apelido da infância e passou a ser chamada por todos de Chica Mal Acabada.

Não era má pessoa, mas cresceu com uma insegurança marcante, provavelmente devido à sua condição física e todo o desconforto que sua aparência gerava. Também por isso, sempre fora uma pessoa introspectiva, tímida. Demorou muito para que Chica se relacionasse com alguém.

Quis o destino que ela conhecesse um moço um pouco mais velho, mais maduro, de quem aos poucos foi se aproximando e se apaixonando. A recíproca aconteceu e em pouco tempo os dois já estavam namorando, para espanto da comunidade local.

O rapaz dificilmente passaria despercebido, pois além de muito bonito, era muito talentoso e tocava violino no coro da Igreja. Chica sabia disso e, mesmo diante de todas as juras de amor feitas por ele, ela morria de ciúmes e medo de ser traída.

Nem mesmo na missa, a mulher se aquietava. Chegou ao ponto de espiar o amante enquanto esse confessava e, ao invés de ouvir atentamente as palavras do padre, escondia um pequeno espelho em meio aos seus livros de orações, para que pudesse, enquanto fingia rezar, vigiar o rapaz que ficava sentado sempre no coro.

Certo dia, enquanto observava o namorado durante uma das orações, foi surpreendida por uma amiga que imediatamente entendeu o intuito daquele espelho. Diante daquela situação, a amiga lhe avisou do tamanho pecado que a moça cometia e que devia parar com aquilo, afinal Deus podia castiga-la.

Chica Mal-Acabada achou graça, debochou da moça e foi embora rindo.

Por mais algum tempo, continuou com o mesmo ritual: escondia o espelho e vigiava o rapaz.

Mas certo domingo, durante a missa das sete, viu no espelho algo simplesmente horrível, indescritível.

Aterrorizada, Chica gritou de forma estridente, rolou no chão e por fim desmaiou. Durante algum tempo, ela ficou assim, inconsciente, imóvel. Depois foi levada para casa ainda sem sentidos e alguns dias se passaram até que voltasse a si.

Quando recuperou a consciência, não teve mais sossego. Passou a ver em todos os lugares aquela mesma imagem diabólica, que a perseguia onde quer que fosse.

Chica não pode ser controlada e teve que ser levada para o “Pavilhão dos Loucos”, na Santa Casa da Misericórdia. Seu estado era sofrível. Às vezes, quando recebia visitas, estava conversando calmamente com uma amiga, quando de repente punha as mãos sobre os olhos e rolava pelo chão sempre a gritar repetindo a mesma coisa: “é ele!”.

Isso tudo constantemente seguido de uma crise tremenda, na qual Chica Mal-Acabada espumava pela boca, mordia-se, batia a cabeça contra paredes ou o próprio chão, rasgava as próprias roupas e por fim desmaiava. Às vezes ficava inconsciente por horas a fio.

Nem mesmo a presença de padres, benzedeiras, amuletos trazidos pelo amante e feitos por feiticeiros… nada ajudava na situação da pobre moça, que tinha crises cada vez piores. Quando chegava a noite, era comum que guardas precisassem socorrê-la e segurá-la para que não cometesse desatinos.

Seu estado era lastimável e, três meses após a internação, Chica já era praticamente um cadáver. Para piorar tudo, uma forte pneumonia a atacou e enfraqueceu ainda mais seu já cansado corpo.

Foi então que a derradeira crise aconteceu. Sofrendo de uma febre violentíssima e já exaurida, viu novamente a terrível imagem. Sob os costumeiros gritos de “é ele!”, a Mal Acabada saltou da cama e, antes que qualquer pessoa pudesse contê-la, enfiou furiosamente os dedos nas órbitas, arrancou o olho direito, depois o esquerdo, e os esmagou em meio às suas mãos cheias de sangue.

Os presentes, paralisados com tudo aquilo, ficaram ainda mais chocados ao verem a mulher dando profundas gargalhadas, num prazer sobre-humano.

Por fim, com aquelas sombra no rosto, ensanguentada e exausta, Chica morreu ali mesmo, diante de todos.

O defunto que o Diabo levou

São João del – Rei, segunda metade do século 19.

Igreja do Carmo ao fundo. (foto de Kiko Neto)

Igreja do Carmo ao fundo. (foto de Kiko Neto)

Soldado reformado da antiga Guarda Nacional, coronel Carlota morava num enorme casarão nas proximidades da Igreja do Carmo junto com sua esposa e filhos. Apesar de falar muito em Deus e andar sempre com seu crucifixo, o coronel ficou conhecido foi por ser maldoso e vingativo com todos a sua volta.

Sua fortuna não fora construída com o salário de soldado, mas sim com os lucros obtidos com o tráfico ilegal de escravos, negócio que realizou com sucesso durante toda a primeira metade do século. Dizia-se que escravo nenhum sofria tanto quanto os que caíam em suas mãos. Carlota os torturava pelo puro prazer de vê-los sofrer.

No entanto, quem mais penava nas mãos do coronel era a própria família. Alvo de seus caprichos e vontades. Ninguém podia contestar a vontade do velho, que ficava cada dia mais difícil de agradar.

Certa vez, resolveu que era hora da filha mais velha se casar. Arrumou para ela um amigo que além de velho, era muito doente. O interesse de Carlota era somente na imensa quantidade de ouro que o pretendente possuía. A filha do coronel se revoltou e recusou o casamento forçado, dizendo que preferia morrer a casar com o homem. O coronel então providenciou para que isso acontecesse, envenenando-a pouco tempo depois do acontecido.

A população da cidade ficou chocada. O homem passou a ser evitado onde quer que fosse.  Até mesmo os antigos amigos foram se afastando.

Foi então que o Coronel Carlota decidiu sair em uma nova empreitada pelo sertão, a fim de fazer novos negócios. Mas o destino não permitiu e o velho homem morreu na véspera da viagem.

A cidade recebeu a notícia de sua morte com uma discreta satisfação. Ninguém tinha muita estima pelo coronel que fora tão maldoso com tanta gente.

O velório foi realizado no segundo andar de seu sobrado, mas poucas pessoas subiram as escadas para lhe dar um último adeus.  Em determinado momento, a sala chegou a ficar vazia, sem ninguém a guardar o defunto.

Quando seu filho retornou a sala, ficou surpreso ao encontrar o caixão vazio. O corpo havia simplesmente desaparecido!

A família espantada com o fato vasculhou a casa, mas nada encontrou. Não havia nenhuma explicação para o misterioso desaparecimento.  Assustados com tudo aquilo e a fim de evitar um escândalo, os familiares decidiram colocar um grosso tronco de bananeira no caixão para fazer peso, e então o fecharam.

Se alguém perguntava por que o caixão se encontrava fechado, respondiam que a doença e a idade estavam fazendo com que o corpo se decompusesse muito rápido, por isso deveria ficar lacrado. O funeral aconteceu naquela mesma tarde e o caixão foi acompanhado apenas por alguns parentes.

No entanto, naquela mesma noite, há quem diga ter avistado numa longínqua encruzilhada um enorme cavalo. O animal era montado por um cavaleiro muito alto e magro, que usava esporas brilhantes em meio àquela escuridão.

O cavalo passou correndo desgovernado e seguiu pelo caminho. Na sua garupa, envolto em um manto esvoaçante, jazia inerte o cadáver do coronel Carlota.

O Sacrílego

Já era madrugada e o Padre Antônio dormia quando ouviu alguém o chamando à porta de sua casa. Sonolento, o sacerdote foi atender o homem, que de tão aflito, misturava as palavras e se embolava em seus gestos.

Padre Antônio pediu que ele se acalmasse e lhe disse o que se passava. O desconhecido então se desculpou pelo horário e lhe disse que era caso de vida ou morte, de salvar uma alma.

Assustado, o padre falou que não se preocupasse com a hora e que estava feliz em ajudar, e perguntou-lhe onde estava a pessoa que precisava de auxílio.

O rapaz rapidamente respondeu que estava na Igreja de São Francisco, que era um pecador que, momentos antes de morrer, havia se comungado sem confessar. O que ele pedia era que o Padre Antônio fizesse a bondade de retirar a hóstia da boca do cadáver, que, segundo o pedinte, não havia se desfeito na boca do defunto.

Igreja de São Francisco (foto de Kiko Neto)

Igreja de São Francisco (foto de Kiko Neto)

O sacerdote se arrumou correndo e partiu para a igreja acompanhado do rapaz e com o pressentimento de que algo estranho estava acontecendo.

Quando chegaram ao Largo de São Francisco, puderam ver a igreja toda iluminada, como tradicionalmente ficava nas noites de festa.

Entraram e a encontraram vazia. Bem no centro da nave estava um simples caixão, sem ornamentos ou flores. Padre Antônio se dirigiu a ele, levantou a tampa e com muito custou abriu o enrijecido maxilar do defunto.

Dentro, encontrou a hóstia em perfeito estado. O sacerdote pegou-a, levou-a ao altar e se pôs a rezar pela alma do pobre falecido. Quando levantou-se, não viu mais o homem que lhe acompanhara até a igreja.

Antes de sair, foi dar uma última olhada no defunto e ficou assombrado ao perceber que as duas pessoas eram idênticas, como se fossem uma só.

Padre Antônio saiu do templo e só quando já estava na rua, percebeu que não vira sequer o sacristão naquela noite. Intrigado, olhou para trás em direção a igreja e, para seu espanto, ela já se encontrava totalmente fechada e com as luzes apagadas.

O religioso resolveu ir embora e seguiu rua abaixo, em direção à sua casa no Bairro Tijuco. Foi então que ouviu o mesmo homem lhe chamando novamente, e dizendo-lhe que esquecera de lhe agradecer por tudo.

Quando pegou em sua mão, Padre Antônio a sentiu terrivelmente fria e rígida, os olhos baixos e semicerrados. Nesse momento, o sacerdote teve certeza que o corpo que vira antes era daquele mesmo homem.

Apavorado, o padre não conseguiu esboçar reação alguma enquanto via o estranho indivíduo ficar cada vez mais pálido, até tornar-se uma fraca névoa e desaparecer rapidamente ali mesmo, diante de seus olhos.

A criança desaparecida

Rio das Mortes, ou Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, é um distrito pertencente ao município de São João del-Rei. Foi lá que, em 1810, nasceu Francisca Paula de Jesus, que mais tarde veio a ser conhecida como Nhá Chica, a primeira beata negra brasileira e que poderá vir a ser a primeira santa nascida no Brasil.

E era nos arredores do Rio das Mortes que vivia tranquilamente uma grande família de muitas posses e conhecida por sua benevolência.

Certa tarde, os irmãos brincavam no pátio quando o caçula, de apenas três anos, se afastou em direção à senzala e, em seguida, sumiu da vista dos outros. Algum tempo se passou até que percebessem que o menino, muito querido por todos, não voltara.

Os pais, preocupados, juntaram os escravos e então os mandaram em diferentes direções a procura do menino. Deveriam verificar cada canto das matas, grutas e serras. Nada deveria passar despercebido.

A busca se prolongou durante todo o entardecer. Procuraram em todo lugar e nada do menino aparecer. Perguntaram aos moradores da região, aos outros escravos, aos mercadores, ninguém tinha visto o menino.

Pouco a pouco, as equipes de busca foram voltando fracassadas, sempre na esperança de que o menino já tivesse retornado.

A mãe, cada vez mais desesperada, chorava e rezava muito, pedindo que as buscas não parassem enquanto o filho não fosse encontrado.

A escuridão cada vez mais profunda a aterrorizava e queria ela mesma sair em busca da criança, mas foi convencida a esperar.

Foi então, quando já amanhecida, que em meio aquela enorme confusão, a voz da pequena criança foi ouvida. Todos saíram em direção ao pátio, onde encontraram o menino que correu para a mãe e disse que estava com muito sono e queria dormir.

Todos lhe perguntaram onde estivera, mas tudo que ele respondia é que uma moça tinha ficado com ele o tempo todo.

Momentos mais tarde, dirigiram-se à igreja para agradecer pela saúde e segurança do filho, que consideraram dignos de um milagre.

O menino ia junto, agarrado à saia da mãe. Enquanto a mãe se ajoelhou para rezar, ele ficou distraído caminhando pela igreja e observando as pessoas e imagens.

Quando o menino voltou, a puxou pela saia e disse-lhe que vira a moça que tinha passado a noite com ele. A mãe levantou os olhos apressada perguntando onde ela estava, pois queria poder conhecê-la e agradecer por tudo que fizera por seu filho mais novo.

Ele então a levou para a parte da frente da igreja e apontou para o alto.

A mãe, já emocionada, percebeu que a mulher que havia cuidado com tanta bondade de seu filho e para quem o menino agora apontava era ninguém menos que Nossa Senhora das Graças, que, envolta em seu manto celeste, possuía um brilho especial naquela manhã.

O Retrato

Padre Ernesto havia chegado em São João del-Rei há pouco tempo e, logo de início, já se deu bem com a população. Era um homem de muita fé e bondade, atendendo a todos a qualquer hora e ajudando sempre que possível.

Certa noite, o sacerdote estava rezando quando uma velha senhora o procurou. Ela foi lhe pedir que fizesse a confissão do filho Alfredo, que estava doente de cama e não podia sair de casa.

A idosa, no entanto, pediu para que o padre não contasse ao menino que estava lá expressamente para vê-lo, pois o menino sofria de um grave problema do coração e se ficasse espantado, poderia até morrer.

Começo da Rua Santo Antônio, saindo do Largo do Rosário

O padre concordou com a ideia e a mulher em seguida disse que iria buscar uns remédios para o filho, mas o encontraria direto na sua casa, a quarta do lado esquerdo na Rua Santo Antônio.

Padre Ernesto se dirigiu à casa, onde foi recebido por uma jovem toda vestida de luto. Ele a cumprimentou e pediu para ver o menino. Com muita sensibilidade e jeito, conduziu a conversa de forma amena e o menino que era muito religioso, acabou por confessar-se sem relutância.

O sacerdote foi embora já tarde da noite satisfeito, mas não chegou a reencontrar a senhora que o buscara na paróquia.

Na manhã seguinte, no entanto, ficou sabendo do falecimento de Alfredo, quando vieram lhe chamar para que encomendasse o corpo.

Padre Ernesto foi à casa e abençoou o corpo. Ao final do ofício, reparou num quadro no fundo da sala. Era um enorme retrato da mãe de Alfredo, que o procurara na noite anterior.

Virou então e perguntou a uma das moças da casa onde estava a mulher, pois desejava lhe falar algumas palavras de conforto.

A moça, com os olhos cheios d`água, lhe respondeu que aquilo era impossível, pois naquele dia fazia exatos três meses que a mãe falecera.

Mula sem cabeça

Venâncio cresceu ouvindo tantas histórias sobre assombrações e fantasmas, que quando ouvia falar sobre algum avistamento nem dava importância.

No entanto, numa noite de sexta feira, durante a quaresma, Venâncio estava voltando do Arraial do Rio das Mortes em direção a São João del-Rei quando ouviu um alto relincho. 

Olhou ao redor e, sem encontrar nada, decidiu acelerar o passo pra casa.

Ao chegar perto do antigo Cruzeiro do Betume, próximo à Matriz de São José, voltou a ouvir o relincho e então avistou uma enorme Mula Sem Cabeça com o pescoço todo em chamas e correndo em sua direção.

Sem ter pra onde correr, Venâncio decidiu enfrentar o animal que o atacava ferozmente. Pegou a foice que trazia consigo depois do longo dia de trabalho que tivera e desferiu diversos golpes contra a Mula, ferindo seu corpo e decepando uma de suas patas dianteiras.

O enorme cavalo em chamas apoiou-se nas outras patas e fugiu em disparada para o meio do mato.

Venâncio aproveitou e correu para a cidade, onde contou tudo que acabara de acontecer.

Na manhã seguinte, foram lhe contar que perto de onde tudo aquilo acontecera, tinham encontrado a mão de uma mulher.

O homem juntou alguns companheiros e se dirigiram para o local. Ao chegarem, viram um rastro de sangue por onde a Mula Sem Cabeça tinha fugido na noite anterior. Seguiram a trilha em meio às arvores e, algum tempo depois, encontraram morta uma lavadeira conhecida no bairro.

Caída de bruços numa vala, a mulher tinha uma perna quebrada e o pulso do braço direito partido ao meio. 

Irmão Moreira

 

Francisco Moreira da Rocha veio de uma das mais tradicionais famílias de São João del-Rei. Cresceu com a confiança e o charme característicos de quem teve um berço de ouro e uma educação distinta.

Francisco se tornou um boêmio inveterado, esbanjando a fortuna que herdara de sua família com mulheres fáceis, bebida e jogos de azar. Vivia entre uma noite e outra, entre uma farra e outra.

Ficou conhecido por toda a cidade. Pais de família passaram a evitar que se aproximasse de suas filhas. Onde quer que fosse, sua fama e as histórias de suas aventuras escandalosas chegavam primeiro. Ele parecia não se importar e até se divertia quando lhe perguntavam se um dia não sairia daquela vida.

Rua da Cachaça (foto de Kiko Neto)

Rua da Cachaça (foto de Kiko Neto)

Certa madrugada saindo da Rua da Cachaça e vagando pela região do Largo do Carmo, que na época tinha uma vida noturna bastante agitada, Francisco se viu diante de uma bela mulher, que imediatamente lhe encantou.

Ela vestia um longo vestido preto, tinha olhos escuros e profundos e andava com uma elegância única. Francisco a cumprimentou. A mulher nada falou, mas sorriu para ele e depois voltou a caminhar.

O boêmio a seguiu sem perceber por onde andava. Entraram na casa da misteriosa mulher e, entre diversas plantas e grandes placas de mármore, deitaram-se em uma enorme cama cheia de plumas e lençóis. Apesar do silêncio da moça, passaram a noite juntos e, ali mesmo, Francisco Moreira adormeceu confortavelmente.

Lápides e túmulos do Cemitério do Carmo

Lápides e túmulos do Cemitério do Carmo

Mas na manhã seguinte, ele acordou com o corpo muito dolorido, exausto. Como quem sai lentamente de um transe, Francisco não conseguia compreender exatamente o que tinha acontecido, nem porque estava em cima de uma dura lousa e não no agradável leito em que havia se deitado na noite anterior.

Foi então que se deu conta de que não estava em casa nenhuma e sim sobre uma lápide de mármore no Cemitério do Carmo. As plantas de que se lembrava, eram na verdade os ciprestes que cresceram ao redor dos túmulos. As paredes brancas eram os grandes muros que cercam o local.

No mesmo instante, Francisco teve a certeza que a mulher com quem havia dormido só podia ser o Diabo, que o enganara e que talvez já tivesse até roubado sua alma.

Apavorado, deixou o cemitério e foi direto à Igreja do Carmo procurar um padre para tentar entender tudo o que se passara. Mais tarde, muito arrependido da vida cheia de pecados que estava vivendo, confessou-se com o sacerdote e prometeu com sinceridade mudar de vida.

A partir desse dia, Francisco Moreira da Rocha passaria a ser conhecido apenas como Irmão Moreira. Daí em diante, todas as suas ações seriam baseadas em uma vida mais pura, cheia de moral e respeito.

O ex-boêmio abandonou tudo o que o ligava àquela vida desregrada. Vendeu suas posses, foi ao banco e retirou todo o resto de sua fortuna, distribuiu tudo o que possuía entre os pobres, instituições de caridade e hospitais da cidade e da região.

Pintura à óleo retrata o Irmão Moreira

Pintura à óleo retrata o Irmão Moreira

Irmão Moreira passou a viajar pregando a palavra de Deus, ajudando pobres, necessitados e doentes. Dedicou-se ao bem até o fim de sua vida. Há relatos de que tornou-se capaz de curar os enfermos apenas com o toque de suas mãos, assim como o próprio Jesus foi capaz de fazer.

Já em idade avançada, Irmão Moreira foi retratado em um quadro de pintura a óleo. O quadro pode ser encontrado na Santa Casa da Misericórdia de sua cidade natal, instituição da qual foi benfeitor por mais de meio século.

A Bisbilhoteira

Gertrudes, ou Tia Tude, como ficou conhecida, era uma senhora que já passava dos 70 anos e morava num humilde casabre no Morro da Forca. A velha vivia com o trabalho de rendeira, além de fazer enormes bonecos de panos com retalhos e trapos que conseguia com as costureiras. Mas ela era conhecida mesmo por outras duas atividades que tomavam a maior parte de seu tempo: as visitas à Igreja e o cuidado que tinha com a vida alheia.

Tia Tude começava sua rotina logo cedo, com a Missa do Carmo. Com seus cabelos brancos cuidadosamente arrumados, ela ia todas as manhãs para a igreja, benzia-se na água benta e se ajoelhava para passar conta por conta do Rosário. Ali mesmo já assistia a primeira missa do dia. Quando acabava, envolvia-se novamente em seu xale e caminhava lentamente rumo a igreja Matriz, onde acompanhava outra celebração. Não passava um dia sem se comungar e dificilmente faltava à confissão. A velha não perdia nada, novena, reza, terço… Até os padres já começavam a se sentir incomodados com a beata.

Quando saía da igreja, Gertrudes se punha a andar pelo bairro. Entrava em tudo que era casa, conversava com todos, tomava um café aqui, comia um bolo ali, era comum até que almoçasse cada dia em um lugar. E onde quer que fosse, a velha falava. E falava de tudo e todos, nada passava desapercebido. A velha conhecia até os segredos mais íntimos dos vizinhos.

Beco da MatrizNão contente com tudo que observava, e por vezes até tomava nota, durante o dia, Tia Tude começou a passar as noites observando escondida atrás das persianas de sua casa. Nada lhe escapava. Ouvia as conversas, as confissões, as declarações de amor. E contava pra todos. Passava a fofoca adiante sem o menor constrangimento.

Certa noite, enquanto observava escondida atrás das cortinas, ouviu baterem à sua porta. Gertrudes caminhou lenta e silenciosamente para os fundos da casa e, de lá, voltou pisando forte e fazendo barulho, a fim de disfarçar que estivera espiando pela janela.

A velha perguntou quem era e o homem respondeu que era apenas um andarilho que ela não conhecia, mas que queria pedir apenas um favor, que ela guardasse um objeto até o dia seguinte.

Curiosa como era, Tia Tude esticou o braço e recolheu o estranho embrulho. Abriu e viu que era uma tocha. Intrigada, a velha certificou-se de trancar a porta antes de ir para seu quarto. O relógio bateu meia noite quando ela se deitava.

Na manhã seguinte, como de costume, Gertrudes acordou cedo para seu ritual matinal, mas a primeira coisa que fez foi correr os olhos pela sala em busca do objeto.

A mulher quase desmaiou quando percebeu que no lugar da tocha que havia sido deixada pelo misterioso desconhecido na noite anterior, agora se encontrava um osso humano, nada menos do que um fêmur provavelmente tirado de um defunto, ainda sujo de terra fresca.

Ela ficou apavorada e correu pra igreja já rezando. Passou a manhã toda ali, como em transe.  Tia Tude encarou aquilo tudo como um aviso celeste.

Conta-se que daquele dia em diante, Gertrudes nunca mais abriu a boca para falar da vida alheia.

Missa das Almas

matrizSão João del-Rei ficou conhecida como terra onde os sinos falam uma vez que durante décadas foram usados para avisar as pessoas dos mais diversos acontecimentos, desde a chegada do Natal e outras datas religiosas, até fatos corriqueiros como nascimentos ou incêndios na cidade.

Os repiques foram criados pelos sineiros com base em um conjunto de regras litúrgicas ainda no período colonial e sobreviveram graças à tradição oral e cultural de seu povo.

Certo dia, a Senhora Virgínia Cabral acordou com as badaladas do sino menor da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, indicando aos fiéis que estava quase no horário da missa das cinco.

Assustada por ter perdido a hora, a idosa, ainda com muito sono, vestiu-se correndo e saiu às pressas em direção à Igreja, para que não perdesse o começo da celebração.

Em meio ao seu vestido longo e preto de eterno luto pelo marido que falecera anos antes, sempre carregava o rosário, que segurava com firmeza enquanto ia rezando pelas ruas da cidade.

Altar da Catedral Basílica Nossa Senhora do Pilar (ou Matriz do Pilar).

Altar da Catedral Basílica Nossa Senhora do Pilar (ou Matriz do Pilar).

Chegando à Matriz, sentou-se para continuar suas orações. Com a vista muito cansada pela idade, não reparou nos rostos que a cercavam, só percebeu que a igreja estava mais cheio que o de costume e o que o padre se movia com uma leveza incomum no altar-mor.

Quando os sinos voltaram a soar, dessa vez indicando as horas, Virgínia começou a contar mentalmente as badaladas. O sino deveria ecoar apenas cinco vezes, mas para seu espanto, não parou de tocar. Foram doze demoradas batidas, indicando meia noite.

Ao final, a mulher olhou ao redor agoniada e finalmente conseguiu reparar nas pessoas a sua volta. Rostos que ela conhecia, mas pertencentes a pessoas que já haviam morrido. Todos com o mesmo semblante sereno.

A fina névoa que cobria o local aos poucos foi sumindo e eis que as luzes se apagaram e todos desapareceram, os fiéis, os ministros, o sacristão e até mesmo o padre.

Um silêncio profundo tomou o local. A pouca luz que lhe permitia ver o grande templo vazio vinha da lua e entrava por brechas nas janelas do alto da igreja.

Virgínia virou-se apavorada em direção à saída, mas as portas também haviam se fechado e ela se viu presa e só. Foi então que ela compreendeu que não haviam assistido uma missa comum, e sim uma celebração dos mortos, das almas.

Sem forças físicas ou mentais, a mulher desabou junto à porta, desfalecida.

Já na manhã seguinte, o sacristão chegou para abrir a igreja para o ofício regular e ficou surpreso ao encontrar a idosa caída, ainda sem sentidos.

Virgínia foi levada para casa e ficou doente por dias. Quando finalmente voltou a si, contou o que havia se passado e, para seu espanto, ninguém havia sequer ouvido o sino na noite em que tudo aconteceu.

O Senhor do Monte Alverne

 

A Ordem Franciscana Secular foi criada por São Francisco de Assis do ano de 1221 a fim de receber seus seguidores que não pudessem simplesmente abandonar tudo em suas vidas para vestir o hábito e prestar os votos franciscanos. A partir de então, leigos que se juntavam à Ordem faziam Voto de Obediência e viviam sob os preceitos pregados pelo franciscanismo.

Três anos depois, no Anno Domini de 1224, São Francisco tem a visão do Serafim e, no Monte Alverne, recebe as chagas de Cristo, tornando-se, assim, o primeiro cristão a ser estigmatizado.

Giovanni di Pietro di Bernardone, o São Francisco, faleceu no dia 3 de outubro de 1226, rodeado por seus irmãos e companheiros.  No entanto, a Ordem Franciscana Secular resistiu aos tempos e exerce um papel importante na Igreja Católica até os dias atuais.

Vila de São João del Rey, 8 de março de 1749

Marc Ferrez registrou a Igreja de São Francisco no final do século XIX.

Marc Ferrez registrou a Igreja de São Francisco no final do século XIX.

É fundada em São João del-Rei, a Venerável Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Assis. Pouco depois, a Ordem passa a planejar a construção de uma grande igreja para a substituição da pequena capela construída para o Santo.

A nova igreja começa a ser construída em 1774 sob os preceitos do Barroco Mineiro. Da sua construção, participaram grandes mestres, como Francisco de Lima Cerqueira, Aniceto de Souza Lopes e Antônio Francisco Lisboa, conhecido também como Aleijadinho, que foi o autor da entrada principal da igreja.

A Ordem, no entanto, não conseguia chegar num acordo sobre a imagem de São Francisco que ocuparia o altar-mor da igreja. Brasileiros, tomados por um impulso patriótico, desejavam a imagem feita em terras nacionais, enquanto os portugueses a queriam lapidada em Portugal.

Já houvera duas reuniões e a irmandade não conseguira resolver o impasse, quando um peregrino, desconhecido na cidade e sem recurso algum, bateu à porta da Casa da Ordem e pediu pousada por uma noite apenas. O homem não trazia nenhuma bagagem, nem sequer um bornal ou um cantil.

A casa foi lhe oferecida e um encarregado o levou para um aposento no porão, onde o peregrino se trancou a chave assim que entrou.

Duas noites se passaram sem que ninguém voltasse a ver o estranho senhor. Não haviam lhe incomodado no primeiro dia, pois queriam que pudesse descansar e se recompor. No entanto, ao fim do segundo dia, preocupados com a saúde do pobre homem, os membros da Ordem resolveram verificar o que estava acontecendo.

Não ouviram nada, n

em sequer um ruído, quando se aproximaram do quarto. Bateram à porta e o silêncio continuou absoluto do outro lado.

Temendo pela saúde daquele senhor, tentaram forçar a entrada e viram que ela estava realmente trancada pelo outro lado.

Certos de que algo estava errado, decidiram rapidamente arrombar a porta do quarto. Chamaram a polícia e algumas testemunhas para a realização do ato e, ao primeiro golpe de machado desferido pelo soldado, a fechadura cedeu.

A escuridão reinava no interior do quarto. Quase nada podia ser visto. Quando as janelas finalmente foram abertas, o misterioso peregrino havia desaparecido.

Os presentes, em vez dele, encontraram uma imagem em tamanho natural de São Francisco de Assis pregado à cruz. Sendo anatomicamente correta e com traços e feições bem delineados, a imagem deixou todos perplexos e deslumbrados tamanha a sua perfeição.

Altar-mor da Igreja de São Francisco de Assis. Na parte superior do altar está a imagem de São Francisco recebendo as chagas de Cristo.

Altar-mor da Igreja de São Francisco de Assis. Na parte superior do altar está a imagem de São Francisco recebendo as chagas de Cristo.

Certos de que aquilo tudo só podia ser um milagre, o peregrino passou a ser tratado também como um santo.

A notícia rapidamente se espalhou e pessoas de todos os lugares vinham visitar e conhecer a imagem. Poucos dias depois, em grande solenidade, a imagem foi finalmente transportada para a Igreja de São Francisco de Assis.

O Senhor do Monte Alverne foi colocado com grande honra no altar-mor de sua Igreja, onde se encontra até os dias atuais.